terça-feira, 1 de setembro de 2015

Uma história...

UMA HISTÓRIA...
(Karl Fern)
Certa vez estava solitário em minha sala de trabalho, concentrado em um projeto, quando bateram à porta, perguntando se poderia entrar. Sem identificar aquela voz suavemente feminina eu confirmei seu pedido.
A porta abriu-se e entrou uma linda e desconhecida jovem morena aparentando vinte e poucos anos, de cabelos lisos longos acastanhados. Estava bem vestida trajando uma blusa azul-escuro com mangas curtas em um azul mais claro. A vestimenta era completada com uma saia comum,  encimada por um cinto estreito, levemente apertado na cintura, prendendo a parte baixa de sua blusa dentro da sua saia. Reparei também que sua saia era de um tecido leve, lisa, de cor escura, talvez preta mesmo, e flexível que descia até um pouco abaixo dos joelhos.
Olhou para mim com um sorriso triste, encostou a porta segurando o trinco com sua mão direita. No seu pulso esquerdo, notava-se uma fina pulseirinha dourada. Depois de pedir licença, sentou-se em frente ao meu bureau, com a cadeira numa posição levemente inclinada em relação a parte frontal daquele móvel.
Ela olhou mais uma vez para mim, com um jeitinho aparentemente nervoso e já com os olhos marejados de lágrimas, perguntou-me de maneira surpreendente para mim, se poderia chorar!
Eu entre surpreso e condoído, respondi-lhe com toda delicadeza e solicitude que poderia. Que poderia chorar à vontade e pelo tempo que quisesse, pois chorar faz bem pra gente quando se precisa desabafar um sentimento e não se tem vergonha de chorar! Que chorar é a melhor maneira que Deus deixou para aliviarmos as dores do coração!
Então ela inclinou o rosto um pouco para frente, colocou a nua e delicada mão direita sobre os olhos, encobrindo-os parte deles e da sua testa, apoiando o braço sobre sua coxa encoberta pela saia, enquanto sua outra mão pegava um pequeno lenço com o qual se pôs a recolher suas incessantes lágrimas que desciam copiosamente enquanto soluçava o seu pranto de maneira quase inaudível.
Era um choro doído, baixinho, soluçante, contínuo e sofrido. Eu apenas observava impotente sentado na minha cadeira, aquela criatura fragilizada que poderia aparentar em outra oportunidade uma jovem muito forte e resistente, mas que naquele momento sucumbia momentaneamente a algum desgosto profundo sem no entanto diminuir sua beleza. Aliás aquele choro parecia lhe tornar mais feminina, mais delicada, indefesa e carente de algo que, desgraçadamente, a fazia sofrer.
Em dado momento ela tentou me pedir desculpas, mas eu a impedir de se martirizar ainda mais pedindo-lhe que não falasse nada, apenas chorasse... chorasse até aliviar aquele mal do seu coração. Até que se sentisse em condições de retomar seu comportamento normal! E ela chorou! Chorou ininterrupta por vários minutos.
Na minha limitadíssima formação psicológica, se eu tenho alguma, não sabia dizer mais nada! Apena observava e contava alguma historinha rápida tentando consolá-la.
Após cerca de uns 25 a 30 minutos ela parou aos poucos de chorar, olhou para mim e esboçou um dos sorrisos mais inocentes, doces e singelos que já vi! Embevecido pelo sua beleza, observando seus olhos negros avermelhados e lacrimosos e ainda surpreso com o inusitado, perguntei-lhe se estava melhor e se queria mais alguma coisa!
Diante se sua negativa ofereci-lhe um copo com água, que ele tomou com sequiosa vontade, mas não quis repetir. Levantou-se da cadeira que até então estava sentada, dirigiu-se para apertar minha mão e fez menção de que iria sair. Seu sorriso era encantador de verdade e pude ver o rosto de uma mulher muito bonita e atraente!
Novamente perguntei-lhe se estava tudo bem, se estava sentindo-se reconfortada e ela confirmou que estava bem e recuperada. Não lhe perguntei o motivo de seu desespero anterior e nem também senti vontade da parte dela em me contar.
Agradeceu-me pelo por tê-la deixado entrar e por ter conversado com ela, levei-a à porta, agradeceu-me mais uma vez e saiu. Não disse seu nome e nem perguntou o meu. Acho que ela nunca saberá, nem procurará saber por vergonha ou por agradecimento ou... quem sabe?
Voltei ao meu trabalho e em pouco tempo estava novamente concentrado. Nunca mais a vi! Espero que eu tenha lhe dado justamente o que ela precisava naquele momento de angústia, com o meu silêncio e apenas escutando seu choro convulsivo!
Espero que esteja feliz e que nunca mais precise de um estranho para escutar seu choro e dividir seu sofrimento, mesmo sem saber qual a razão! Afinal nenhum mortal merece sofrer, mais ainda uma quase menina, tão jovem, linda, meiga e delicada.
O episódio ficou para mim como um segredo e praticamente escapou por dentro de minha mente e hoje, por algum motivo de memória voltou enquanto eu estava aqui vasculhando o facebook e, então, resolvi escrevi este relato com minha quase inexistente verve de escritor. Se alguém o ler até o fim e gostar já me darei por extremamente satisfeito.
A vida é tão curta para que percamos tempos preciosos com infelicidades momentâneas. Como o mundo seria bem melhor se as pessoas, mesmo não sabendo ou podendo ajudar, pelo menos não atrapalhasse quem tem vontade de viver e quer aproveitar a vida sem prejudicar ninguém!