sábado, 29 de março de 2014

Momento lírico 260

JANELA DO TREM
 (Karl Fern)

Naquela janela envidraçada
Refletia-se fascinante beleza
Duplicava com toda clareza
A feição sublime e delicada
Que mesmo sem contar nada
Parecia-me ser uma certeza
Pela hábil mão da natureza
Sua face havia sido moldada!

Cabelos levemente bailavam
Enquanto o trem prosseguia
Um fascínio em mim acendia
Meus pensamentos vagavam
Mágicas canções ressoavam
Um perfil que a mim parecia
De intensa e divinal harmonia
Como os poetas imaginavam.

Joia preciosa e deslumbrante
Pelo divino artesão lapidada
Tinta numa redoma estrelada
Num ritual terno e palpitante
Fino e maravilhoso semblante
Em raios mímicos sombreada
Na nave do tempo encantada
Na face da paisagem mutante.

Como em um delicioso sonho
Qual se desperta de repente
Aquela moldura imponente
Foi-se num instante bisonho
Deixou-me frágil e tristonho
Era sua estação finalmente
Tal tela desfez-se docemente
Restou-me um suspiro risonho!

Momento lírico 259

TEMPOS MODERNOS
(Karl Fern)

A vida no interior do Seridó está diferente
Na área rural a comparação é mais patente
Não há mais interesse em trabalhar na roça
Se chove não se ver ninguém plantando nada
Só terreno carcado acompanhando a estrada
 Moto estacionada até mesmo numa palhoça

Sítios desmatados como um triste deserto
Tabuleiros brocados e nada cultivado perto
Não se planta nem se tem fruteira no oitão
Não há mais galinha gogó de sola ou pedrês
Patos e guinés no terreiro perderam sua vez
No água da cozinha não há um pé de limão.

O tradicional cultivador é coisa do passado
Ninguém quer saber de ter um boi amansado
O agricultor espera um trator cortar a terra
Se chover bem, talvez um pedaço ele plante
Se não colher o perdão do governo garante
Assim o galo canta e também o bode berra.

Não se vê mais uma horta verde no quintal
Nem couro de criação bem esticado no varal
Nem jumento, uma cangalha e seus cambitos
Muitas cercas em terrenos e seus barrancos
Que pode render alguns trocados dos bancos
Pra serem perdoados em tempos mais aflitos.

E nessa política paternalista o governo mata
Essa vigorosa força de trabalho flui em cascata
Vai viciando e matando esse incauto cidadão
Iludindo-o com politicagens, bolsas e comida
Faz ele se acomodar nessa preguiça de vida
Pensar o mundo como na novela da televisão!