quarta-feira, 12 de março de 2014

Salerno e a Scholae Salernitanae*

(Texto compilado pelo autor do blog, Prof. Carlos Fernandes)
Cidade do sul da Península Itálica, a poucos quilômetros ao sul de Nápoles, capital da província italiana de Salerno, da região de Campania, que foi colônia romana até 194 a.C. e, posteriormente, ocupada pelos godos, por sua vez derrotados pelos gregos que a ocuparam por mais de cinco séculos (53-568). Esteve, posteriormente, sujeita aos bizantinos, lombardos e normandos.
Com duas nascentes de água, banhada a oeste pelo Mar Tirreno, com um porto na Baía de Pestum, sua localização geográfica e o fato de ser um porto marítimo, a favoreceu para se tornar um histórico e importante entreposto comercial entre a África, o Médio Oriente e o Sul da Europa. Por causa de seu clima ameno, desde a antiguidade foi muito procurada por doentes e lá se fundou uma famosa escola de medicina, a Scholae Salernitanae, uma comunidade de médicos que lhe deu o nome ao local. Ela teria sido fundada durante o século VIII cristão, por quatro lendários mestres do conhecimento curativo, a saber, Helino, judeu, Ponto, grego, Adela, árabe, e Salernus, latino, que lideravam uma comunidade de médicos que ensinava, estudava e publicava sobre medicina. Há quem afirme que, de fato, estas personagens nunca existiram e o que houve foi a mistura, a fusão, destas quatro culturas, as culturas mediterrâneas. A latina, autóctone, do tempo do Império Romano, a grega, uma reminiscência da passada e longa ocupação bizantina, a árabe, provinda das incursões dos muçulmanos ocupantes da Sicília, e a hebraica em consequência da Diáspora.
No século X a escola já tinha fama no estrangeiro, pois há registros de que Adalberto II, bispo de Verdun, na França, teria ido para lá se tratar de litíase renal (969). A afirmação veio com Frederico II e o esplendor com Constantino o Africano, que lhe deu o nome de Civitas Hippocratica.
Inicialmente, sofreu influências diretas da medicina monástica, especialmente do Mosteiro de Montecassino, mas aos poucos foi-se autoafirmando e criando as suas próprias doutrinas e modos de proceder e conheceu o apogeu entre os séculos XI e XIII cristãos. A fama da Schola Salerni, provém, em grande parte, do poema didático de origem desconhecida mas composto em latim por vários mestres, com 269 versos leoninos, Regimen Sanitates Salernitanum (~1050), também conhecido, por Flos medicinae Scholae Salernitanae. Uma obra de 10 seções, uma espécie de prontuário sobre higiene, drogas, anatomia, fisiologia, etiologia, semiologia, patologia, terapêutica, classificação das doenças e prática clínica e um epílogo. Não era uma obra científica no verdadeiro sentido do termo,  mas o resultado de uma série de observações, com conselhos, advertências e indicações, uma espécie de prontuário, um vade mecum. A origem desta obra é desconhecida, porém é imaginável que sido composta por vários mestres da Escola (1050). O Regimen foi traduzido pelo médico catalão Arnaldo de Villanova, professor em Salerno antes de se mudar para Montpellier, no século XIII.
O declínio da Escola de Salerno, iniciou-se no séc. XIII, coincidindo com o surgimento das Universidades de Bolonha e Montpelier, mas essencialmente pelas sucessivas questões políticas entre os soberanos regionais e subsequentes. Por exemplo, Conrado, filho legítimo de Frederico II, por vingança extinguiu a Escola de Nápoles considerando Salerno a verdadeira Escola Médica. Já Manfredo, o filho bastardo de Frederico II, quando chegou ao poder, decretou Nápoles como a única Escola do reino em detrimento de Salerno.
Com o tempo muitos mestres saíram para outras escolas da península Itálica e da França e, assim, sua influência foi ultrapassada por novas universidades nos séculos seguintes. As atividades de ensino da Escola Médica de Salerno foram encerradas em 29 de Novembro (1811) quando Napoleão ordenou seu fechamento, o que foi executado por Joaquim Murat.
Finalmente desapareceu para sempre o edifício da velha Escola (1943), durante a II Guerra Mundial, sob as bombas dos Aliados. Além de Trotula, outras mulheres, também teriam lecionado em Salerno, entre elas Abella Salernitana, Constança Calenda e Sigelgarda.
* Texto baseado em O Momento da História, do Prof. António Leite Carneiro, Serviço de Neurologia, Hospital Militar D. Pedro V, Porto - Congresso de Neurologia, Lisboa, Novembro de 2005. Fonte: SÓ BIOGRAFIAS (http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/) 

Mulheres brilhantes - 01

Trotula Abella Plataerius ou Trotulla di Roggiero ( ~1050 - 1097)
Mestra da Escola de medicina de Salerno nascida nesta cidade, primeiro nome feminino referido em Escolas Superiores, citada como mulher sapientíssima ou Sapiens Matrona e considerada a primeira ginecologista e urologista da história da Medicina, introdutora de ideias inovadoras como o uso de anestésicos para alívio de dores do parto. 
Pouco se sabe da sua vida, apenas ser filha de um médico e ter exercido medicina no século XI, além de ser citada como uma mulher de grande sabedoria. Por ser de família nobre, pôde estudar na Escola Médica de Salerno, a 1ª escola médica laica. Casou-se com o médico salernitano Giovanni Plateo ou Platearius, o Velho, que se referiu a sua esposa na sua obra Pratica. Também consta que teve dois filhos: Giovanni Platearius, o Jovem, e Matteus Platearius (1120-1161), que também foram professores de prestígio. Dizia que para ter saúde é preciso antes ter higiene, alimentação equilibrada e praticar atividade física regularmente.
Publicou um tratado sobre a saúde da mulher intitulado De Passionibus Mulierum Curandorum ante, in, post partum, versando sobre ginecologia, obstetrícia e puerpério, em 63 capítulos, uma obra que passou mais de 700 anos como livro de texto e também conhecida como Trotula Maior e da qual ainda restam fragmentos. Citando fontes como Hipócrates, Galeno, Oribásio e Dioscórides, entre outras recomendações aconselhava a proteção do períneo e a sutura das rasgaduras.
Parece ter praticado cesariana e usou e recomendou o emprego de opiáceos como anestésicos durante o parto, o que lhe causou transtornos com a Igreja por contrariar as Escrituras. Estava escrito que para a mulher parir era preciso ter muitas dores como Deus tinha mandado (Santa ignorância religiosa!).
Descreveu as manifestações externas da sífilis e citou a doença como causa de esterilidade masculina e feminina. Também lhe é atribuída a autoria de uma publicação sobre cosméticos conhecida como De Ornatun mulierum ou Trotula minor, além de De Aegrituinum Curatione, e outras obras, entre as quais um tratado de pediatria.

Fonte: SÓ BIOGRAFIAS (http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/)