segunda-feira, 3 de junho de 2013

Momento lírico l67

A JANELA
(Karl Fern)

Debruçado nessa janela
Olho o céu limpo e claro
O sol inclemente revela
Seu calor cruel e avaro.

Nenhum fiapo de nuvoeiro
Uma vasta tristeza avança
Vasculho o horizonte inteiro
Não garimpo uma esperança.

Um vento quente desliza
Folhas secas rolam no chão
A sofrida craubeira avisa
Que partilha minha emoção.

Um ben-te-vi se lamenta
Com seu canto arrepiante
Piora sua garganta sedenta
Uma inocência contrastante.

O meu desejo impotente
Rega inútil meu coração
Com lágrima intermitente
Sobre a imensa sequidão.

Uma touceira de paturá
Raro resquício de umidade
Uma nódoa verde, quiçá
Sobre esgotos da cidade.

Numa esperança perdida
Só Deus pode consolar
Viver nessa terra sofrida
É triste e eterno desolar.

No rádio ouço uma canção
Que fala em felicidades
Um vocábulo sem emoção
A não ser ressoar saudades.

Saudades de quando chovia
Espalhando água á vontade
O banho na chuva que caía
Dando ao solo fertilidade.

Dos trovões o som mavioso
E raios como lindo poema
Nosso rio Seridó caudaloso
Seus peixes em piracema.

Vejo o riacho que um dia
Onde peguei tanta piaba
Fico sonhando em fantasia
Mas logo o sonho acaba.

É pena, medonha ameaça  
Que numa terra tão bela
Se perceba tanta desgraça
No debruçar duma janela.