terça-feira, 26 de março de 2013

Momento lírico 153

NORDESTINO
(Karl Fern)

Olha pra o céu desolado
Imagina que ver Jesus
Apontando pra sua cruz
Pra pagar cada pecado
E o nordestino sofrido
Crer tá sendo castigado
Pra quando for perdoado
Ser outra vez protegido.

A vil seca consume tudo
Da água até sua criação
É de abscindir o coração
Com férreo punhal agudo
E o nordestino acanhado
Ver seu mundo esvaindo
A fome tudo consumindo
Chacinando o resto do gado.

Sol vai queimando a terra
Tudo que a vista alcança
Nem um naco de esperança
Surge por trás da serra
E o nordestino faminto
Prossegue submisso da fé
No dia que Deus quiser
Acaba o aperto do cinto.

Se algum passarinho canta
Não é mais que um lamento
As fracas rajadas de vento
Nem as suas penas levanta
E o nordestino esmorece
E no derradeiro momento
Se ainda tem um alento
Enceta uma penosa prece.

O seu barreiro sem vida
Lama rachada no porão
Espinhas de peixes no chão
Semente de vida perdida
E o nordestino tão crente
Olha pra’quela sequidão
Quando passar a provação
Volta a chover novamente.

Se alguma caça ele avista
Trata logo de lhe pegar
A fome o obriga a matar
Qualquer bicho que exista
E o nordestino carente
Em meio a sua precisão
Um bicho é uma benção
Caída do céu de repente.

O céu entardece colorido
Vermelho-sangue e forte
Aquele vento do norte
Lhe deixa mais dolorido
E o nordestino profeta
Permanece desanimado
Mas por dentro consolado
Vontade divina é correta.

A noite no céu estrelado
Acha o Cruzeiro do Sul
Sombras na nebulosa azul
Pode dar bom resultado
E o nordestino acanhado
Pensa no mestre divino
Que vai mudar seu destino
Num ano novo molhado.

E quando pela madrugada
Fita o lado do nascente
O sol já nasce inclemente
Com uma barra minguada
E o nordestino se prepara
Pra mais um dia de luta
Pois quem tá vivo labuta
Nem que fazendo coivara.

Pois se o castigo acabar
E o ano que entra chover
A natureza virá reviver
O mundo todo melhorar
E o nordestino vai sorrir
Vai agradecer a bondade
Do Senhor da humanidade
E as desgraças vão sumir.

Passarada voltará a cantar
O mato de verde se cobrir
Flor do mandacaru se abrir
O sapo no barreiro coaxar
E o nordestino de verdade
Vendo uma rês escapando
No curral escaramuçando
Quase morre de felicidade.

E quanto mais a chuva vem
Mais ele agradece aos Céus
Olha enternecido os seus
Sem eles não é ninguém
Pra o nordestino valente
Chuva é o abençoado maná:
“Outro no Universo não há,
Só Deus tem pena da gente!”