quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Momento lírico 136

LEMBRANÇAS
(Karl Fern)

Era criança e com meu pai um dia
Passando pelo roçado do vizinho
O compadre parou um pouquinho
E me falou com uma certa agonia:
“Olhe, se quer ser gente com valia
Estude pra ser um digno brasileiro
Porque aqui é o mundo derradeiro
Só tem muito aperreio e sofrimento
Se trabalha muito mais que jumento
E se vive namorando com nuvoeiro”.

Hoje entendo tudo quanto ele dizia
Segurando no cabo da sua enxada
Limpando sua roça seca plantada
Pesaroso mas com muita sabedoria
Queixoso e sob um sol que encardia
Olhando ora pro céu e ora pro chão
O seu destino era viver na escuridão
Sujeito aos caprichos da natureza
Que todo o motivo de sua tristeza
Era não ter tido das letras uma lição.

O sertanejo vive olhando para o céu
Sempre rogando uma gota de chuva
Sujeito até a praga da formiga saúva
E pra que não fique vivendo ao léu
Como um condenado sem ser réu
A salvação tá no estudo e na cultura
Ter uma vida livre dessa amargura
Que é viver analfabeto e agricultor
Não deixem que isso seja o matador
Do roceiro sertanejo da agricultura!

Quando vejo pelas nossas viajadas
Nas minhas voltas pelo árido sertão
Os descampados doídos de sequidão
As carcaças dos animais espalhadas
Mortas de sede e fome, abandonadas
Saber que tudo poderia ser evitado
Com algum projeto bem intencionado
Mas que por falta de mínima piedade
Políticos usam essa vil adversidade
Pra se locupletarem do desgraçado.