domingo, 13 de janeiro de 2013

O Pavão Misterioso

Contava minha saudosa mãe, Francisca Fernandes Luciano, que meu avô, Adelino Fernandes, deixara o interior do Rio Grande do Norte para tentar ganhar a vida como seringueiro na região amazônica. Infortunadamente, ao pisar num espinho venenoso, caiu doente e retornou para casa, onde morreu em seguida, enviuvando minha avó, deixando-a desamparada e com sete filhos para criar.
É aqui que entra o primeiro causo sobre o romance “O Pavão Misterioso”. Como a minha avó ainda era relativamente jovem, apareceu um interessado em cortejá-la. A estratégia do paquerador consistia em parar diante da casa dela e declamar a primeira estrofe do romance “O Pavão Misterioso”: “Eu vou contar a história/Dum pavão misterioso/Que levantou vôo da Grécia,/Com um rapaz corajoso,/Raptando uma condessa,/Filha dum conde orgulhoso”. E parava por aí, pois aproveitava o apito do local onde ele trabalhava, para fugir da responsabilidade de declamar as estrofes restantes, as quais, provavelmente, não haviam sido decoradas. No dia seguinte, a mesma coisa se sucedia. E a minha avó morreu sem cair no conto do pavão.
Sobre a autoria de “O Pavão Misterioso” há uma controvérsia que dura até hoje. Na minha estante, por exemplo, preservo dois exemplares de “O Pavão Misterioso”; num, a autoria é atribuída a João Melchíades Ferreira, e, no outro, lançado pela Luzeiro Editora, consta o nome de José Camelo de Melo Rezende como o autor da obra. Porém, de acordo com Átila Almeida e José Alves Sobrinho, autores do Dicionário Bio-Bibliográfico de Repentistas e Poetas de Bancada, o verdadeiro autor seria José Camelo de Melo Rezende (Pilõeszinhos, Município de Guarabira – Rio Tinto – PB, 28/10/ 1964), um dos mais imaginosos e aventureiros dos poetas populares nordestinos.
O problema de autoria dos folhetos é antigo. Nos primórdios, quase sempre os autores vendiam os direitos de publicação de suas obras a outros poetas e editores que, por sua vez, passavam a assumir a autoria. Leandro Gomes de Barros (1865- 1918), criador do folheto impresso, por exemplo, preocupado com os direitos autorais, publicou o seguinte texto: “Com o fim de evitar os abusos constantes, resolvi d’ora em diante estampar em todas as minhas obras o meu retrato em um clichê, sem lugar determinado”.
Além de “O Pavão Misterioso”, que se tornou um dos maiores clássicos da literatura popular nordestina, José Camelo foi autor de vários romances que se tornaram igualmente conhecidos: Pedrinho e Julinha; História do Bom Pai e o Mau Filho ou Juvenal e Lilia; Coco-Verde e Melancia; Entre o Amor e a Espada; Encontro de Dois Poetas: José Camelo de Melo com Manoel Camilo dos Santos; dentre outros.
Colaboração do Prof. B. A. Luciano, do DEE/UFCG (artigo publicado no Diário da Borborema, em 16 de abril de 2009)